Começo

A Estância Santa Luzia ficava localizada no Jardim Sampaio Vidal em Mauá. Um amplo espaço verde com parque aquático, trilhas para caminhada, restaurantes e quadras de tênis. Costumava frequentar aos sábados com a família de um primo. As dores na virilha que havia sentido há algumas semanas apareceram após os primeiros minutos de partida no campo onde mais cedo treinava o time profissional do AD São Caetano, naquela tarde no fim do mês de Abril de 2003.

– Você jogou bola nos últimos dias, Renan? – disse o médico do Posto após apertar com força minha virilha quase me fazendo pular da maca de tanta dor.
– Joguei.
– É alguma dor muscular. Vou te passar um cataflan, se você ficar em repouso logo passa, fica tranquilo.

As dores sumiram realmente por alguns dias, mas voltaram bem mais fortes. Voltei tomar o mesmo remédio.

– Mãe, você comprou o remédio errado dessa vez, porque não está passando as dores!
– Eu comprei exatamente o mesmo remédio, usando a mesma receita… estranho.

Sem os efeitos do remédio, a dor começou ficar mais forte a cada dia e passei algumas noites sem conseguir dormir. Até então imaginávamos que era uma inflamação, luxação ou contusão. Estava na 6ª série, e nesses dias parei de ir à escola pra ficar em casa em repouso que de certa forma aliviava um pouco.

Uma certa tarde ao tomar banho percebi que havia formado na virilha um caroço do tamanho de uma ameixa e essas dores estavam começando atrapalhar a articulação do fêmur. Mostrei pra minha mãe e aquilo nos assustou bastante.

Voltamos ao mesmo posto onde um outro médico clínico geral que receitou uma injeção contra a dor, sem pedir nenhum exame ainda. Obviamente não resolveu. Voltamos ao mesmo médico no dia seguinte, onde me fez uma guia pra marcar um exame de ultrassom no posto público, mas demorariam longos 90 dias pra sair o resultado. Não tínhamos plano de saúde, nem tempo pra esperar 3 meses.

Na manhã da sexta-feira, 9 de maio de 2003, depois de todas as consultas frustradas, um médico do Hospital Nardini resolveu enfim pedir um raio-x da bacia, realizado e entregue no próprio dia apesar da demora de quase um dia todo. Era início de noite quando minha mãe e eu estávamos na sala de espera impacientes esperando o atendimento e escutando o tic-tac do relógio da parede quando o médico nos chamou ao consultório. Entramos, me pediu pra deitar na maca, fez algumas perguntas à minha mãe e examinou a região da virilha.

– Consegue levantar a perna mantendo-a reta?
– Não.
– De 0 a 10, quanto essa dor te incomoda?
– Mais que 10…

O médico sentou com fisionomia de preocupação, coçou a cabeça e nos pediu pra sentar. Fez algumas anotações no prontuário, olhou o raio-x por uns instantes, ensaiou algumas palavras e disse:

– Mãe, não quero te assustar, mas isso aqui só pode ser um tumor.

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