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“Foi o grego Hipócrates, que deu o nome de “câncer” à doença que em grego significa “caranguejo”, pelo aspecto do tumor, as projeções e vasos sanguíneos ao seu redor fazem lembrar as patas do crustáceo. Até hoje a medicina não detém tecnologia necessária para compreender e tratar essa doença.”

“Tumores ósseos são raros na infância. O sarcoma de Ewing, o mais frequente desse tipo, tem um forte poder para se espalhar pelo resto do corpo.”

“O câncer é a principal causa de morte em todo o mundo. São 7,6 milhões de óbitos a cada ano.”

As pesquisas sobre câncer impressas por meu tio Milton diziam também que em 2003, 1 entre 600 crianças até 15 anos desenvolveu câncer no Brasil. Até umas décadas atrás, quando a probabilidade de cura era muito pequena, a doença significava uma sentença de morte. Hoje, o diagnóstico precoce, que não foi meu caso, aumenta as chances de cura em até 80%.

Nesses dias, minha tia renata juntou mil reais em doações com o pessoal do trabalho. Chegou chorando um dia, e ao saber, a assistente social da empresa pediu uma foto minha. Contou que seu pai já tinha passado por um tratamento de câncer e sabia como era difícil e custoso. Colocaram a foto, uma que havia tirado uns 2 anos atrás com as roupas do meu pai em uma atividade da escola para o dia dos pais, anexaram junto a uma lista explicando e através das doações dos funcionários da empresa, muitos os quais minha tia nem conhecia, foram arrecadados mais de mil reais que duraram mais de 3 meses, gastos em alimentação, combustíveis e remédios.

Então conhecemos o catéter.

– Vamos colocar um catéter no Renan, pra ajudar na quimioterapia. – disse a Dra. Cecília em uma consulta –  O catéter é um tubo plástico longo e fino que é colocado em uma veia grossa perto do coração, assim ele não precisa tomar remédio no braço, que é bem ruim, judia muito da criança ter que ficar furando o braço toda hora e levando o acesso a veia pra casa. Para colocar vamos precisar fazer uma pequena cirurgia com anestesia geral, mas o SUS não cobre a implantação que é muito cara, então nos temos um grupo de doadores que mandam pra gente. Só o que a gente pede é que você faça uma cartinha e mande pra quem doou, você não vai ficar sabendo quem é, mas será entregue a essa pessoa. A gente geralmente só coloca em criancinha menor, mas vamos colocar nele, afinal, ele ainda é pequenininho, né? – Riu.

A pequena cirurgia aconteceu na quarta feira e não demorou mais que meia hora.

Antes de começar a quimioterapia no dia 27 de maio, saíram os resultados de alguns exames que tinha feito na semana que passou a pedido da médica.

– Vou pedir também uma tomografia do pulmão porque esse tipo de tumor do Renan costuma espalhar metástases principalmente no pulmão. Se tiver lá, vai complica tudo…

E complicou. Todos os exames estavam em normalidade menos um. Na dita tomografia, haviam duas metástases do mesmo lado com pouco menos de 1 centímetro cada. Segundo as estatísticas das pesquisas, a chance de vida e cura agora giravam em torno de 20%.

27 de maio de 2003.

O relógio amarelo de pilha tocou as 4:30h. Levantei, calcei os chinelos, peguei minha roupa e fui tomar banho com ajuda da minha mãe, pois a perna ainda doía muito e eu pouco ficava em pé. Do chuveiro ouvi chamarem ao portão. Eram meus avós, agasalhados e com olhar penoso, vieram me ver antes do primeiro dia.

A noite anterior havia sido horrível. A ansiedade e angustia havia tomado conta de nós, pois não fazíamos ideia de como seria a partir de agora apesar de toda informação dos médicos e conversas com algumas mães e pacientes. Saindo de casa, liguei o rádio velho do carro e sintonizei o “Baú da Mix”. “Miracle” do Bon Jovi, sempre tocava e até hoje quando ouço me lembro das viagens de Mauá a São Paulo de madrugadas indo pro Hospital do Câncer.

A sala de espera estava cheia de pacientes logo cedo. 90% crianças, sempre com algum brinquedo nas mãos, a maioria não aparentava medo, pareciam estar bem. As mães conversavam e tricotavam tranquilamente.

Demorava quase meia hora para, depois de dar entrega com os papéis, os enfermeiros prepararem os remédios que seriam usados no dia e iniciar a sessão. Carregando-os em um carrinho, com uma máscara e luvas, vieram me chamar. Um pano grosso branco, embrulhando agulhas, tesouras e seringas, muitas bolsas de soro e remédios.

Caminhando ao lado da enfermeira e de minha mãe pelo longo corredor, passando por várias salas, espiando notei várias realidades. Nas primeiras salas, idosos e adultos. Me deu um frio na espinha quando passei pelo primeiro quarto de porta aberta e vi uma criança magra passando mal, chorando e vomitando. Os corredores e salas tinham um cheiro peculiar, de medo, de morte. Na parte da pediatria, os desenhos na parede, brinquedos nas estantes e cadeiras coloridas tentavam deixar o ambiente menos pesado. Então a fica caiu. Eu estava mesmo doente, estava com câncer, poderia mesmo morrer aos 12 anos.

Era o começo do primeiro dia.

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Piá

Meu nome é Renan Monteiro, tenho 22 anos e vou compartilhar minha experiência contra um câncer, mas antes vou contar um pouco da minha história.

Filho de pais paulistas e irmão de um casal mais velho, nasci em 1991 em Mauá, cidade vizinha de São Paulo capital.

Em 1994, durante uma crise financeira, minha família se mudou para Ubiratã, uma cidade pacata no centro-oeste do Paraná. Cresci num ambiente rural, brincava sobre a terra vermelha paranaense, tomava leite direto de vaca trazido por uma fazendeira em uma caminhonete todas as manhãs, andava de bicicleta nas ruas largas e planas da cidade e sempre visitava sítios e fazendas.

Em 1996, nas férias do prézinho eu já sabia ler, e desconfio que tenha sido o melhor aluno da história da escola, como vocês podem ver aqui, haha. Tinha uma namoradinha de cabelo chanel que beijava no rosto todo dia atrás da escola. Ainda chamava-se “recreio” o intervalo de descanso entre as aulas, e eu sempre ia na biblioteca ler livros da Bruxa Onilda (sucesso entre a molecadinha) e ficar namorando os computadores com windows 95 que só os alunos do ensino médio podiam usar.

Em 97, com a febre Latino, lembro que cantava suas músicas em frente o ventilador e roubava o lápis de maquiagem da minha mãe pra fazer um bigode parecido com o dele (shame on!). Há gravações que me mostram com 7 anos cantando e dançando “Florentina de Jesus” do começo ao fim.

Voltamos para Mauá em 1999, quanto eu tinha 8 anos. Em São Paulo, experimentei a inédita vida urbana, as brincadeiras na rua, conheci os “maloqueiros” (coisa que só existia em São Paulo), e a péssima qualidade do ensino fundamental. Os meninos daqui soltavam pipa, brincavam com fubecas,  jogavam bola nas ruas esburacadas da vila e rodavam pião, cada brincadeira em sua época do ano; pipas nas férias escolares, fubecas antes das férias de julho e pião antes das férias de fim de ano.

Logo no primeiro ano em São Paulo, sofri um acidente de bicicleta. Estava andando sem freio na rua de casa, perdi o controle, desci uma ladeira enorme, atravessei a avenida movimentada sem ser atingido por nenhum carro e dei de cara com um muro. Prometi nunca mais andar de bicicleta. 3 meses depois voltei a andar de bicicleta.

Um dia, em abril de 2003, após brincar na rua, voltei pra casa sentindo dores na virilha.

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Minha história com um câncer

Vou contar uma história. 10 anos atrás eu fui diagnosticado com câncer na bacia. Fiz quimioterapia, algumas cirurgias e radioterapia. Nesse blog, quero contar como foi pra mim e pra minha família enfrentar um tratamento agressivo sabendo o tempo todo da incerteza da cura e como transformei isso tantos anos mais tarde na melhor experiência da minha vida.

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