Careca

Em uma tarde qualquer na minha casa em uma daquelas primeiras semanas do tratamento num dia que não precisamos ir ao hospital, levantei tarde, tentei comer alguma coisa e fui pra sala assistir TV e ficar deitado. Minha mãe parou de varrer a cozinha quando me viu, sentou ao meu lado e começou conversar.

– Reparei em uma falha aqui na sua nuca. Já já seu cabelo vai começar cair.

Já tinha feito 2 sessões de quimioterapia, as dores na bacia haviam diminuído, mas eu estava muito mole, queria deitar o tempo todo, não tinha força pra caminhar ou ficar de pé. As refeições eram difíceis, perdi totalmente o apetite. Na boca, predominava um gosto amargo de remédio. Tinha fortes dores no maxilar quando mastigava qualquer coisa. Perdi muitos quilos em poucos dias.

– Você precisa fazer muita força pra comer, ficar mais forte. Temos mais um ano disso tudo pela frente.

Minha mãe tentou fazer muita coisa diferente pra eu comer, trouxe comida diferente de todos os lugares. Minha vó, minhas tias e algumas mulheres da igreja traziam coisas, mas nada descia. De vez em quando eu pedia algo:

– Acho que polenta eu consigo comer! – E lá saia meus pais atrás de polenta, a qualquer hora do dia. Mas quando sentia o cheiro, perdia o apetite.

Me esforcei pra subir as escadas e ir ao banheiro. Quando voltei, minha mãe estava retirando um bom punhado de cabelo que havia ficado nas almofadas do sofá onde eu estava.

– Olha só como já caiu um monte!

Comecei puxar de leve uns tufos e eles iam se desprendendo da cabeça com muita facilidade. Sem perceber, havia deixado um rastro pela casa.

Minha mãe, cabeleireira, foi buscar a maquininha pra cortar. Eu tinha um cabelo muito preto, bem grosso e espetado. Sentei na cadeira na sala e em poucos minutos eles estavam no chão. Minha mãe se esforçando pra continuar enquanto eu via pelo espelho a minha frente algumas lagrimas rolarem de seu rosto, cortou baixinho e pediu pra eu tomar banho.

Enquanto tomava banho e caia o resto do cabelo que havia sobrado, ouvi minha mãe e minha irmã chorarem no meu quarto aos prantos.

Debaixo do chuveiro, caiam sobrancelhas, cílios e qualquer pelo que havia no corpo. Sai do boxe e parei em frente ao espelho embaçado. Apoiei as mãos na pia pra me firmar de pé e fiquei na frente por uns instantes esperando o espelho desembaçar lentamente. Aos poucos e pela primeira vez eu enxerguei aquela imagem. Um medo tomou conta de mim.

Eu estava totalmente careca.

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