Olá, quimioterapia

27 de maio de 2003, minha primeira sessão de quimioterapia.

Naquele corredor gelado e silencioso onde ficavam as salas da pediatria para aplicação da quimioterapia, entrei na última à direita. Eram 8 da manhã e já haviam ali dois pacientes que pude ver de perto suas lutas pelo câncer durante um certo tempo. Um ficou bem e acabou o tratamento meses depois. Um rapaz de 18 anos, de Socoraba em São Paulo e fazia tratamento pela segunda vez por causa do tumor no braço direito. Esse estava acompanhado da irmã um pouco mais velha, uma menina de cabelo chanel e voz rouca e que falava bastante.

O outro convivi por mais tempo, viajamos juntos, nos encontramos muitas vezes nas salas de quimioterapia até que um dia, ansioso pela viagem de volta pra casa que se aproximava após o fim do tratamento, descobriu que um tumor tomara conta de seu pulmão. Só a mãe voltou.

Junior tinha uns 10 anos e veio do Maranhão faziam uns 4 meses. Tinha exatamente o mesmo tipo de tumor que o meu. Até 2003, a média de pacientes que o hospital recebia com o nosso diagnóstico era 2 por ano. Porém nesse ano, além do Junior, era era o quinto, e ainda estávamos em maio.

Para esses pacientes que vinham de outros estados pra fazer tratamento em São Paulo, era oferecida morada gratuita na Casa Hope, que ficava na vila Mariana. A casa pagava Taxi, alimentação e alguma ajuda de custo para os pacientes.

A irmã Mariinha da igreja nos acompanhou esse dia mais uma vez e ficou revezando com minha mãe pois na cadeira ao meu lado só podia ficar um acompanhante. 

Então chegou a enfermeira com o carrinho de remédios. Abri a camiseta de botões, passaram um líquido meio marrom muito fedido no meu peito, no lugar onde estava o catéter e com uma agulha grossa e curvada em forma de “L”, furaram a pele, colocaram algodão e esparadrapos em cima. Poucos minutos depois comecei reclamar de dor no lugar do catéter. As enfermeiras diziam que era normal doer pois a cirurgia de implantação havia acontecido dias antes mas eu respondia que a dor era muito aguda e não podia ser por aquilo. Depois de certa insistência e um pouco de lágrimas, elas retiraram os esparadrapos pra ver como estava o cateter e encontraram uma enorme bola no meu peito causada pela vazamento do soro. Minha mãe saiu da sala assustada e foi chorar na sala de espera. Retiraram e começaram de novo.

Na hora do almoço, o hospital dava um lanche leve aos pacientes, um pacote com um pão com queijo, suco da caixinha e gelatina, que ficaram no meu estômago por poucos minutos antes de pararem no chão da sala. Durante o dia todo, por causa das altas dosagens de soro, eu urinei umas 15 vezes. Eram sacos enormes de soros e remédios até receber em uma seringa grande com um liquido muito vermelho, o liquido da quimioterapia.

Voltamos pra casa muito casados 14h depois de sair de casa. No caminho, calor e o habitual  trânsito da capital.

Dormi no carro e acordei já em casa, com meus dois irmãos nos esperando no portão aflitos. Meu irmão mais velho correu pra me ver e empurrando minha mãe gritou “cadê o Renan? cadê o Renan?”. Foi pra dentro da casa depois que me viu, sentou na escada, colocou a cabeça entre as mãos e chorou com minha mãe do lado durante muito tempo.

Esse foi só o primeiro dia.

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