Maligno

Terça-feira, 19 de maio de 2003.

Na sala de preparação pro centro cirúrgico, um lugar amplo com macas e grandes cortinas brancas e pesadas que dividiam os leitos onde os pacientes ficavam pouco tempo ali recebendo alguma medicação preparatória antes ou algum cuidado após  as cirurgias, havia uma mãe vendo a pequena TV preta presa por um suporte na parede, enquanto sua menina de 2 anos, carequinha, magra, com um vestidinho vermelho, brincava com um brinquedo montanha russa.

Era 7:30h da manhã. Deitei na maca esperando que me buscassem pra fazer a pequena cirurgia pro exame marcado para aquele dia, enquanto minha mãe e a Mariínha, uma mulher querida da igreja que gentilmente se ofereceu para nos acompanhar nesses primeiros dias, conversavam com a mãe da menina.

A sala, que ficava no primeiro subsolo do hospital, tinha uma janela que dava pra ver lá em cima as pernas das pessoas que passavam na calçada da R. Prof. Antônio Prudente. Levei as mãos a nuca e fiquei um tempo olhando distraído o movimento na calçada, imaginando quem era e onde iria cada pessoa que passa ali. Calças e sapatos brancos, calças sociais, jeans, vestidos, saias até os pés… através das grades da sala e angustiado com a pequena operação que se aproximava, desejei estar do lado de fora como aquelas pessoas, da mesma forma que um presidiário deseja as ruas olhando através das grades de uma cela.

Do outro lado da sala, a mãe contou que fazia um ano que a menina estava fazendo tratamento com quimioterapia e o tumor na retina só havia piorado. Aqueles momento seriam os últimos que a menina enxergava, o mundo a sua volta e as cores do brinquedo que manuseava com tanta atenção. Antes que eu subisse, os enfermeiros vieram buscar a menina pra fazer a cirurgia que retiraria suas retinas deixando-a cega.

– Dá o bracinho pra tia? – disse a enfermeira. De pronto e sem medo, como se já estivesse acostumada a picadas e agulhadas, a menina sentou na cadeira, a enfermeira levantou a blusinha e injetou a anestesia que fez efeito rápido. Minutos depois ela fechou os olhinhos e sua cabecinha caiu bruscamente no ombro da mãe.

– Oh meu Deus, que dózinha da minha pequena! – disse sua mãe, que saiu da sala acompanhando a menina antes de despedir-se dela, entregando-a aos médicos.

O exame que eu iria fazer nesse dia era a temida biópsia. Um procedimento onde é colhida uma amostra do tecido injetando uma agulha na região do tumor, e serve pra confirmar o diagnóstico de câncer. A parte removida é analisada pelo médico patologista através de microscópio para determinar se o tumor é maligno ou benigno, qual seu tipo e as previsões de seu desenvolvimento. Era necessário anestesia geral, e isso me assustava. Não durou mais de meia hora e o resultado final sairia em 15 dias. Fiquei algumas horas de volta na sala acordando e me recuperando da anestesia e fomos embora.

Na terça-feira ligaram para minha mãe. Disseram que era preciso ir no hospital assinar alguns papéis da minha vaga. Nesse dia eu não precisei ir, fiquei em casa de repouso. A perna ainda doía bastante.

Chegando lá, minha mãe mais uma vez acompanhada da Mariínha, entrou na sala da Dr. Cecília, que após uma conversa rápida sobre os papéis e documentos que ainda faltavam, como CPF e RG que eu ainda não tinha desde o nascimento, sem delongas começou dizendo:

– Mãe, o que o Renan tem é um tumor maligno. Se chama sarcoma de Ewing e esse tipo de tumor responde a quimioterapia.

Minha mãe começou chorar aos poucos e a angustia ia crescendo conforme a médica continuava:

– Ele vai fazer quimioterapia por um ano ou mais, e pode ter várias complicações durante esse tempo. A quimioterapia vai matar todas as células boas e ruins do corpo, e ele vai ficar sem imunidade nenhuma, o que pode causar problemas nos rins, no figado e no coração além de tornar qualquer arranhão perigoso, uma simples gripe pode complicar tudo… Então é preciso ter muito cuidado com ele. Não pode levá-lo a lugares fechados, como escola, cinema, trem, lugares com muita gente. Se ele tiver febre não espera amanhecer, se deu febre 3h da manhã, trás ele na hora pra cá, não espera nem 10 minutos.

– Mas tem chance de cura?
– 50%.

A médica pegou uma tabela que mostrava como seriam os ciclos de aplicação da quimioterapia, mas minha mãe não queria ver, não queria ouvir, queria que ela parasse de falar, mas queria fazer milhões de perguntas, mas não conseguiu dizer palavra alguma. Estava confusa e cheia de dúvidas, milhões de pensamentos passando na sua cabeça nesse momento. Acabou a conversa na sala da médica, e as últimas palavras que ela se recordava e essas que minha mãe levaria pra casa e guardaria na mente durante muito tempo eram “50% de chance de cura”.

Levantaram pra ir embora, pegaram os papéis em cima da mesa, a médica terminou dizendo:

– Seja forte, seu filho vai precisar muito de você.

Saiu da sala, sentou na primeira cadeira que viu da recepção, colocou a cabeça entre as mãos e chorou ainda mais. Duas voluntárias que já deviam estar acostumadas a ver esse tipo de cena, se aproximaram, colocaram a mão no ombro e tentaram acalmar. Mariínha ficou do lado, pouco falou, deixou ela chorar um momento. Entre um choro, um copo d’água e um papel enxugando o rosto, deu pra ver de longe a médica que atravessava o corredor olhando diretamente pra ela. Talvez uma expressão de tristeza atrás de uma outra expressão de seriedade profissional misteriosa que sempre a acompanhou.

No caminho de volta pra casa ela pensou:

– Como vou chegar em casa e contar pra uma criança de 11 anos que ela tem câncer e tem 50% de chance de viver?

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