Exames

Terça-feira, 13 de Maio de 2003.

O primeiro contato com o ambiente hospitalar do A. C. Camargo foi assustador. Cadeirantes, amputados, crianças e adultos debilitados, fracos, magros, mães e familiares aflitos, cansados e tristes. Algumas crianças pareciam estar bem, mas era só olhar que estavam sem cabelo que lembrava que havia uma doença muito perigosa dentro delas.

Mas de alguma forma não pensamos que aconteceria conosco estar no estado daquelas pessoas. As palavras do médico do Hospital Nardini em Mauá “não significa que ele tenha câncer” eram fortes e esperançosas, mas não nos deixava ver com mais clareza a realidade.

Meus pais estavam quietos desde que chegamos e eu pensava ao ver aquelas crianças “que pena! tão fracas, não podem nem brincar. E como são feias!”.

No hospital havia um grupo organizado de voluntárias, identificadas pelo uniforme branco e rosa. Eram mulheres, a maioria com mais de 50 anos, que se dispunham a ajudar sem cobrar um tostão por isso no transporte de documentos, limpeza e assistência aos pacientes de qualquer forma de segunda a sexta, de manhã até de noite. Uma voluntária nos serviu chá e algumas bolachas. Eu estava com fome, pois não podia sair do hospital pra comer fora pra não perder a consulta.

Das 8:00h até as 11h ficamos esperando atendimento quando finalmente pudemos entrar na sala de consulta. Dra. Viviane, jovem residente fez várias perguntas e me examinou na maca. Tirou pressão, ouviu batimentos, analisou as pálpebras.

Uma hora se retirou da sala e foi se reunir com a sua supervisora. Foi nosso primeiro contato com alguém que seria a responsável pelo meu tratamento e participante de várias outras histórias. Dra. Cecília, médica chefe da oncologia e pediatria do Hospital conversou com meus pais e pediu na mesma hora exames de sangue para aquele dia e outros pra quinta-feira.

Ficamos mais sossegados por conseguimos atendimento logo no mesmo dia. A maior preocupação era não conseguir uma vaga e ficar sem ter o que fazer mais uns dias enquanto a doença avançava e se fortificava a cada dia.

Chegando em casa, novamente o telefone tocou sem parar até de noite, e a conversa era a mesma.

– Fomos no hospital hoje, ele já fez alguns exames e até sexta-feira vai fazer mais… Sim, qualquer coisa pode ligar, obrigado, esteja orando!

Na quarta-feira acordamos cedo. Meu pai precisou trabalhar e fui sozinho com minha mãe pro hospital. No meio do caminho, chegando em São Paulo, ela se perdeu e demorou pra encontrar o caminho do hospital. Como estávamos atrasados, quando chegamos na calçada, ela me mandou eu procurar a parte de exames de imagem sozinho, pois ela ia estacionar o carro em algum lugar. A sala de espera, estava vazia, silenciosa e o único barulho era o da TV grande pendurada na parece, passando algum jornal matutino.

Para realizar os exames de imagem, é necessário antes tomar um contraste, uma solução que vai ajudar os médicos verem melhor os órgãos e vasos sanguíneos no exame. Algumas vezes tomei o contraste direto na veia, outras eles me davam uma jarra de 1 litro de solução, misturada com água, açúcar e suco em pó, mas mesmo assim era horrível de se tomar. Nos dois casos, era preciso esperar 2h antes de fazer os exames, enquanto o contraste fazia efeito no corpo. Nesse dia tomei contraste na veia, que minutos depois começou esquentar o corpo e dar coceira nos olhos e na cabeça como reação. Enquanto esperávamos, minha mãe procurou conversar com algumas mães e pacientes da sala, enquanto eu dormia deitado no seu ombro.

Duas horas depois, entramos em uma sala grande, toda branca e gelada pra fazer a cintilografia óssea, um exame que faz uma espécie de raio-x do corpo todo. O paciente deita em uma maca, e um aparelho passa rente ao corpo da cabeça aos pés numa velocidade mínima e agoniante. Pra ficar do meu lado, minha mãe precisou vestir um colete de chumbo muito grande e pesado pois a radiação do lugar é grande. O exame demora mais ou menos meia hora pra ser concluído e o paciente precisa estar imóvel o tempo todo, mas minha virilha começou doer muito quando deixava a perna reta e eu chorei de dor segurando as mãos da minha mãe. Quando me mexi demais, tive que fazer o exame todo de novo. Na segunda vez aguentei um pouco mais, mas antes de terminar, tive que me mexer pra aliviar a dor novamente. Esse exame ficou incompleto.

Na sequência fui pra sala da ressonância magnética. Uma sala escura e barulhenta. O paciente entra dentro de um tubo, também muito rente ao corpo, dando uma terrível sensação de claustrofobia. Eles colocam um fone no ouvido do paciente e um botão na mão esquerda pra apertar a qualquer hora e parar o exame caso necessário. Esse exame eu consegui fazer até o final. Enquanto isso, do lado de fora, a cada 10min o enfermeiro ia avisar minha mãe que estava tudo bem, pois por causa da mais alta radiação e barulho da sala, ela precisou ficar do lado de fora durante os longo 40 minutos do exame.

Fomos embora. Na quinta feira, no dia seguinte, precisávamos passar em uma consulta com o médico da cirurgia pélvica.

Por volta de 21h da noite, eu já fui deitar, sabendo que ia acordar cedo no outro dia. Geralmente eu ficava jogando bola e brincando com a molecadinha da rua até esse horário, e minha mãe precisava gritar bastante pra eu entrar, jantar e dormir pra acordar cedo pra ir pra escola no outro dia.

Naquele dia minha mãe passou no quarto pra dar boa noite, e perguntar como eu estava. Reclamei de dor pois andei bastante esse dia e não pude fazer repouso. Ela ficou em silêncio por um instante. Me olhou, passou a mão nos meus cabelos e no escuro do quarto apagado, com as luzes do lado de fora refletindo em seu rosto, eu vi algumas lágrimas rolarem do seu rosto. Entre um choro miúdo e encolhido ela disse:

– Como era bom quando você ficava brincando na rua até essa hora…

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