A. C. Camargo

O médico do Hospital Nardini finalizou a consulta dizendo:

– Vou encaminhar o Renan para o Hospital do Câncer em São Paulo, mas calma, isso não significa que ela está com câncer, mas lá eles tratam de todos os tipos de tumor. Pelo que eu vejo aqui no raio-x, é provável que seja apenas um tumor benigno que pode ser tratado com uma simples operação, mas vamos ver como será o tratamento lá no Hospital. Podemos continuar com os remédios pra aliviar a dor nesses dias, e é importante que ele fique de repouso esse tempo todo.

O médico nos deu uma guia pra entregar pra assistente social do Nardini, e recomendou que ligássemos todos os dias pra ela arrumar uma vaga com urgência no A. C. Camargo, porque segundo ele, era coisa bem difícil na época pelo SUS.

Meu pai nos aguardava na rua de baixo do hospital no nosso Uno Mille cinza, ano 94. Do outro lado da rua vi que se assustou quando viu minha mãe se aproximar com os lábios cerrados, entrar no carro depois que sentei no banco de trás, repousar a cabeça no encosto e chorar. Chorar muito. Só quando chegamos em casa, conseguiu se acalmar e dizer com uma voz rouca e falhada:

– Ele tem um tumor… e agora?

Subi pro meu quarto assustado e confuso. Queria conversar com minha mãe, mas achei que não era um bom momento.

Fiquei em repouso o fim de semana todo assistindo TV ou lendo alguma coisa. Recebi várias visitas entre familiares, pessoas da igreja e amigos. Nosso telefone tocou bastante e ouvia de longe minha mãe contando a mesma história pra todo mundo.

– Ele está com tumor e vamos ter que levá-lo ao hospital do câncer… sim, darei notícias assim que puder, obrigado, tchau.

Segunda-feira, 12 de maio depois do almoço e durante uma visita de algumas pessoas da igreja em minha casa, a assistente social do Hospital Nardini nos ligou e perguntou alguns dados. Disse que já havia ligado pro Hospital Mário Covas, Heliópolis entre outros e ainda não conseguiu alguma vaga. Minha mãe disse que o médico havia pedido pra tentar primeiro no A. C. Camargo e ela disse que retornaria mais tarde pois esse não havia tentado ainda, pois era o mais complicado de todos os anteriores.

– Enquanto você liga, eu estarei orando pra você conseguir – disse minha mãe.

No começo da noite o telefone tocou:

– Você orou mesmo né? Consegui uma vaga pro Renan. Você precisa falar com o pessoal do hospital do câncer, mas precisa levar um papel que está aqui em minhas mãos. Venha buscar pois estou indo embora daqui alguns minutos e vá com ele na terça-feira de manhã.

Era dia de rodizio de placas em São Paulo, e precisávamos chegar antes das 7h pra não ser multados. Ás 4:30h da madrugada da terça-feira gelada e nublada do dia 13 de maio de 2003, ouço do meu quarto o velho despertador amarelo de pilha do quarto da minha mãe começar a tocar. Abri os olhos, mas não levantei. Levei as mãos à nuca e esperei minha mãe acordar e vir me chamar na cama, ganhando assim mais uns minutos de sono como sempre fazia antes de ir pra escola. A princípio esqueci do hospital eu pensei que seria mais um dia de aula.

Depois de me arrumar e tomar café, levei um cobertor pro carro e fui dormindo no caminho.

O céu ainda estava escuro quando saímos. Peguei no sono rápido dentro do carro e acordei já em São Paulo, com meus pais perdidos consultando o guia quatro-rodas da cidade emprestado do meu avô.

Depois de uma viagem de 29km de Mauá até o bairro da liberdade em São Paulo, pouco antes das 7h da manhã chegamos. Paramos o carro na calçada em frente ao hospital na R. Prof. Antônio Prudente. Haviam na calçada folhas caídas das gigantescas árvores da calçada e fazia muito frio. Quando estava na entrada, olhei para cima nos andares superiores do hospital. No quinto andar, vi através de uma ampla janela, com um avental hospitalar e um suporte de soro ao lado, uma criança olhando pra rua acenando pra alguém.

6 meses depois eu estaria com uma cadeira de rodas exatamente ali naquele lugar com minha mãe, olhando meu pai ir embora depois de uma visita e acenando pra ele.

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2 comentários sobre “A. C. Camargo

  1. Cleide disse:

    Sua atitude em relatar este episódio de sua vida, mostra o quanto vc é um jovem forte e firme na fé. Acredite que assim estará auxiliando muitos outros a perseverar e crer na cura total. Grande beijo! Fique com Deus! Sua mãe, minha prima muito querida, sente-se abencoada em ter um filho como você!

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